Cingapura – O Diálogo Shangri-La 2026, principal cúpula de defesa e segurança da Ásia, foi concluído em Cingapura no domingo, em meio à intensificação das tensões geopolíticas, à expansão das atividades militares e ao aumento das incertezas de segurança no mundo.
As discussões na cúpula de três dias ressaltaram as crescentes preocupações de que a expansão dos acordos de segurança baseados em blocos e a interferência externa estejam minando a estabilidade regional e aumentando a desconfiança estratégica.
Ao mesmo tempo, muitos participantes enfatizaram a importância da centralidade e do diálogo entre os membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla em inglês) para a manutenção da paz e da estabilidade regional.
Nesse contexto, a visão chinesa de segurança comum, abrangente, cooperativa e sustentável, conforme destacada na Iniciativa de Segurança Global (ISG), tem atraído crescente atenção de especialistas e observadores regionais como uma abordagem alternativa para lidar com os crescentes desafios de segurança.
MUDANÇA MILITAR DO JAPÃO CHAMA A ATENÇÃO
No diálogo de domingo, o ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, disse que o Japão expandiria ainda mais a cooperação com os países da região em equipamentos de defesa e tecnologia militar, reacendendo as preocupações sobre o contínuo fortalecimento militar de Tóquio e a expansão de sua presença na área de segurança.
O discurso de Koizumi ocorreu em um momento em que o Japão continua acelerando uma grande mudança em sua postura de segurança pós-guerra por meio do aumento dos gastos com defesa e da flexibilização das restrições às exportações de armas.
Observadores notaram que a mais recente medida de Tóquio alimentou preocupações entre os países da região de que o Japão esteja se afastando cada vez mais de sua antiga orientação pacifista e se aproximando de um papel militar mais assertivo.
O crescente poderio militar do Japão merece atenção de seus vizinhos regionais e da comunidade internacional em geral, disse Eng Kok Thay, secretário de Estado do Conselho de Ministros do Camboja.
Essas medidas podem acelerar a expansão militar do Japão, aumentar as tensões na região Ásia-Pacífico e provocar uma corrida armamentista que ameaça a estabilidade regional, alertou ele.
Kiyoshi Sugawa, pesquisador sênior do Instituto da Comunidade do Leste Asiático do Japão, disse que, ao permitir maior flexibilidade nas exportações de armas, incluindo potenciais exportações para países envolvidos em conflitos, o Japão corre o risco de abandonar a imagem que cultivou como uma nação pacífica desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
DIPLOMACIA DE “CÍRCULO PEQUENO” ALIMENTA TENSÕES
Também durante o diálogo, o secretário de Defesa das Filipinas, Gilberto Teodoro, apresentou o país como um “guardião da liberdade dos mares”, destacando a crescente cooperação em segurança marítima com diversos parceiros.
No entanto, analistas observaram que as últimas ações de Manila refletem um padrão mais amplo de acordos de segurança baseados em blocos, que está remodelando o cenário de segurança regional.
As Filipinas e o Japão aprofundaram sua conivência em segurança, ao mesmo tempo que intensificaram a diplomacia excludente de “círculo pequeno”.
As Filipinas também buscam forças externas para se encorajarem em suas violações e provocações no Mar do Sul da China, enquanto tentam transferir a culpa para a China.
A razão fundamental pela qual as Filipinas conseguiram continuar suas provocações é que contam com o “apoio de poderosos aliados”, incluindo os Estados Unidos e o Japão, disse Salawati Binti Mat Basir, consultora jurídica da Universidade Nacional da Malásia.
A crescente dependência de intervenções militares e ações unilaterais está corroendo a confiança na ordem internacional centrada na ONU, no direito internacional e nos mecanismos multilaterais, disse Tang Shi Xuan, pesquisador do Instituto de Políticas Huayan, vinculado ao think tank Centro de Estudos Chineses da Malásia, com sede na Malásia.

Policiais de serviço no Hotel Shangri-La, local do Diálogo Shangri-La 2026 em Cingapura, em 29 de maio de 2026. (Foto de Then Chih Wey/Xinhua)
PILAR DA ESTABILIDADE REGIONAL
Em meio às crescentes preocupações com a segurança, alguns líderes regionais presentes no diálogo defenderam uma visão mais ampla de segurança, centrada no desenvolvimento e na cooperação.
Em um discurso no diálogo, o presidente vietnamita To Lam disse que a segurança sustentável não pode depender da expansão militar ou da competição armamentista, mas deve estar fundamentada no desenvolvimento, na conectividade e em estruturas de cooperação.
Ele também ressaltou a responsabilidade da ASEAN em garantir que a competição regional não se transforme em confronto.
O secretário-geral da ASEAN, Kao Kim Hourn, destacou o papel do bloco como força estabilizadora e seus esforços contínuos para promover o diálogo, a cooperação e uma arquitetura regional baseada em regras.
Ele também enfatizou o compromisso da ASEAN em manter sua centralidade e unidade, incentivar a cooperação inclusiva e fortalecer a resiliência regional.
José Ramos-Horta, presidente de Timor-Leste, descreveu a ASEAN como um modelo bem-sucedido de cooperação regional, dizendo que a experiência do bloco demonstra que a diplomacia contínua, a construção de consensos e a cooperação prática podem ajudar a prevenir conflitos, fortalecer a interdependência e promover uma paz duradoura.
Disputas devem ser resolvidas por meio do diálogo e de mecanismos regionais, e não por interferência externa, disse Virdika Rizky Utama, diretor-executivo do think tank PARA Syndicate, com sede em Jacarta. Ao reforçar a centralidade da ASEAN, os países da região podem preservar a estabilidade e a autonomia, acrescentou ele.
VISÃO PRIORIZA A COOPERAÇÃO
Em meio aos crescentes desafios de segurança, a ISG, proposta pela China, tem recebido apoio cada vez maior de observadores internacionais como uma resposta eficaz à crescente instabilidade global.
A ISG, proposta pela China, e a Iniciativa de Governança Global oferecem a sabedoria e as soluções chinesas para a comunidade internacional na resposta aos desafios globais, disse Meng Xiangqing, chefe da delegação de especialistas do Exército de Libertação Popular da China e professor da Universidade Nacional de Defesa da China.
As iniciativas defendem o multilateralismo e o Estado de Direito nas relações internacionais, fornecendo ideias e soluções importantes para lidar com os desafios globais, disse ele.
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, disse que uma nova visão para a construção de uma relação EUA-China construtiva e de estabilidade estratégica, conforme acordado pelos dois chefes de Estado durante a recente cúpula em Beijing, é “significativa para a história da paz na região e no mundo”.
O novo posicionamento para os laços EUA-China é real, substancial e significativo para a história da paz na região e no mundo, disse ele ao responder a uma pergunta de um membro da delegação chinesa no diálogo.
Enquanto isso, especialistas de países da região concordaram que a ISG está ganhando crescente relevância em meio à turbulência global.
O apelo consistente da China por segurança comum, abrangente, cooperativa e sustentável no âmbito da ISG oferece uma estrutura alternativa construtiva à aliança baseada em blocos que atualmente alimenta as tensões regionais, disse Kok Thay.
A ISG não exige que os países escolham lados ou sacrifiquem sua independência, disse Utama. Em vez disso, oferece uma plataforma onde as nações podem buscar a segurança coletivamente, sem ficarem presas a cálculos de soma zero, o que se tornou particularmente atraente para os países do Sul Global.
A ISG amplia o conceito de segurança para além dos assuntos militares, incluindo segurança energética, segurança alimentar, saúde pública, segurança tecnológica e estabilidade da cadeia de suprimentos, observou Tharakorn Wusatirakul, presidente do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento Econômico e Educacional da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) na Tailândia.
Isso reflete a visão de que desenvolvimento e segurança são inseparáveis, tornando a iniciativa mais responsiva aos complexos desafios do mundo contemporâneo, disse ele.
(Repórteres da Xinhua que contribuíram para a matéria: Sovan Nguon, Jonathan Edward e Tim Santasombat)







