
Pessoas participam de uma feira em comemoração ao festival “pohui” em uma aldeia étnica Miao do Distrito Autônomo da Etnia Miao de Rongshui, Cidade de Liuzhou, Região Autônoma da Etnia Zhuang de Guangxi, sul da China, em 7 de março de 2026. (Xinhua/Huang Xiaobang)
Em sua essência, a abordagem da China enfatiza a importância da formulação de políticas coordenadas, do planejamento de longo prazo e de um sistema de governança orientado para resultados.
Por Maya Majueran
Em 2021, a China declarou uma conquista histórica: a erradicação da pobreza absoluta, após décadas de esforços que tiraram cerca de 800 milhões de pessoas da miséria. Segundo a maioria das estimativas, isso representa mais de três quartos da redução da pobreza global nas últimas décadas.
No entanto, a pobreza extrema continua sendo um grande desafio global. Governos em todo o mundo em desenvolvimento estão se esforçando para elevar os padrões de vida e tirar as populações da linha da pobreza, mas o progresso permanece desigual.
As tensões geopolíticas e o crescente protecionismo nos países desenvolvidos estão agravando a situação. Disputas comerciais, sanções e cadeias de suprimentos fragmentadas estão restringindo as economias em desenvolvimento voltadas para a exportação. Ao mesmo tempo, políticas de imigração mais restritivas estão reduzindo o fluxo de remessas, do qual milhões de famílias mais pobres dependem.
Além disso, a intensificação da competição geopolítica está desviando a atenção e os recursos da cooperação para o desenvolvimento. Os orçamentos de ajuda estão sob pressão, as instituições multilaterais estão cada vez mais politizadas e as respostas globais coordenadas para a redução da pobreza estão se enfraquecendo. Para os países em desenvolvimento já sobrecarregados por dívidas, vulnerabilidade climática e instituições frágeis, essas pressões externas estão agravando os desafios e aumentando a incerteza.
Então, como a China conseguiu uma redução tão drástica da pobreza? Não por meio de um plano rígido, mas sim por meio de uma abordagem flexível e adaptativa, moldada pelas próprias condições, abordagem essa que combinou planejamento de longo prazo com experimentação pragmática. As políticas eram frequentemente testadas localmente antes de serem implementadas em escala nacional, permitindo aprendizado, ajustes e aprimoramentos contínuos.
Para o Partido Comunista Chinês (PCCh), a erradicação da pobreza está profundamente enraizada em sua missão fundadora de melhorar a vida das pessoas. A eliminação da pobreza extrema também foi um passo fundamental para o objetivo mais amplo de “prosperidade comum”. Isso foi acompanhado por uma mudança estratégica em direção à revitalização rural e ao desenvolvimento do capital humano, incluindo maiores investimentos em educação e capacitação profissional.
No centro dessa transformação estava a mudança de práticas de distribuição de benefícios amplas e passivas para um modelo mais preciso conhecido como “Alívio da Pobreza Direcionado”. A China reconheceu que a pobreza tem muitas formas, cada uma exigindo uma resposta personalizada em vez de uma solução única.
Para as pessoas com capacidade para trabalhar, as políticas se concentraram no desenvolvimento industrial e na formação profissional para gerar crescimento autossustentável. Isso ajudou muitas pessoas a saírem da agricultura de subsistência e ingressarem em empregos qualificados ou no empreendedorismo. Para quem vivia em áreas geograficamente desfavorecidas ou remotas, o Estado implementou programas de realocação em larga escala para aproximar as comunidades de oportunidades econômicas viáveis.
Ao mesmo tempo, indivíduos com limitações geográficas, deficiência ou idade foram apoiados por meio de programas de compensação ambiental e um sistema de proteção social ampliado. Essa estratégia abrangente foi além do bem-estar básico, buscando remodelar as perspectivas econômicas dos grupos mais desfavorecidos.
Milhões de quadros do partido foram designados para as aldeias, vinculando as metas políticas centrais à implementação local. Por meio de “critérios de saída” rigorosos e avaliações em nível domiciliar, o combate à pobreza foi definido não como uma conquista nominal, mas como uma transição mensurável e sustentada para melhores condições de vida.
No início do período de reformas, a transformação agrícola foi decisiva. A introdução do sistema de contratos de responsabilidade familiar no final da década de 1970 deu aos agricultores maior controle sobre a produção e incentivos mais fortes para aumentar a produtividade. Isso foi apoiado por investimentos em irrigação, infraestrutura rural e acesso ao mercado, o que impulsionou a produtividade e a renda rural. Com o aumento da produtividade, o excedente de mão de obra migrou gradualmente da agricultura para atividades não agrícolas.
A China também promoveu a industrialização intensiva em mão de obra. Empresas municipais e rurais absorveram um grande número de trabalhadores rurais, proporcionando empregos perto de casa e aliviando as pressões iniciais para a migração urbana em massa. À medida que as reformas se aprofundavam, a manufatura voltada para a exportação, particularmente em províncias costeiras como Guangdong e Zhejiang, criou milhões de empregos em setores como têxtil, eletrônico e indústria leve. Essas indústrias, com barreiras de entrada relativamente baixas, permitiram que amplos segmentos da população participassem do crescimento econômico.
Investimentos maciços em infraestrutura reforçaram essa transformação. Estradas, portos e redes de energia conectaram regiões rurais e do interior aos mercados nacionais e globais, reduzindo custos e possibilitando a expansão dos negócios. Melhorias na educação e nas habilidades básicas também contribuíram para a mobilidade da mão de obra, permitindo que os trabalhadores migrassem para setores de maior produtividade.
Embora a assistência social e os programas direcionados ao combate à pobreza tenham desempenhado um papel importante, especialmente nos últimos anos, o principal motor da redução da pobreza continuou sendo o crescimento do emprego e da renda. Os mais pobres não eram meros receptores de apoio, eles estavam cada vez mais integrados à economia produtiva. Essa combinação de aumento da produtividade, expansão industrial e criação de empregos ajuda a explicar a escala e a velocidade do progresso da China.
No entanto, a experiência da China não se resume a um modelo único. Seu caminho de desenvolvimento foi moldado por condições institucionais, demográficas e históricas singulares. Tentar replicá-lo apenas por imitação dificilmente terá sucesso.
Em vez disso, a China oferece algo mais importante do que um modelo: um conjunto de princípios. Esses incluem flexibilidade política, experimentação, sequenciamento estratégico de reformas e um foco contínuo na redução da pobreza. Para os países em desenvolvimento comprometidos com o fim da pobreza, a experiência da China oferece lições valiosas, desde que sejam adaptadas às realidades locais, em vez de adotadas integralmente.
Em sua essência, a abordagem chinesa ressalta a importância da formulação de políticas coordenadas, do planejamento de longo prazo e de um sistema de governança orientado para resultados. Igualmente importante é sua ênfase na experimentação, tratando as políticas como um processo de teste, aprendizado e aprimoramento.
Para os países em desenvolvimento, a verdadeira lição não é copiar políticas específicas, mas construir instituições capazes de adaptar as estratégias às suas próprias condições. A experiência da China serve menos como um modelo a ser replicado do que como um ponto de referência, demonstrando o que o compromisso sustentado, a governança pragmática e a reforma sensível ao contexto podem alcançar ao longo do tempo.
Em última análise, a experiência da China, usar dados para identificar os pobres, criar empregos que os incluam no crescimento, responsabilizar as autoridades pelos resultados e tratar as políticas como algo a ser testado, e não imutável, pode servir de referência para os países que precisam.
O sucesso da China mostra que a pobreza extrema não é uma condição incurável. Mas o caminho para sair dela não pode ser copiado integralmente, deve ser moldado localmente. A única constante universal é a disposição para experimentar, mensurar resultados e se adaptar, passo a passo.
Nota da edição: Maya Majueran atua como diretora da Iniciativa Cinturão e Rota do Sri Lanka, uma organização independente e pioneira com vasta experiência em consultoria e apoio à Iniciativa Cinturão e Rota.
As opiniões expressas neste artigo são da autora e não refletem necessariamente as da Agência de Notícias Xinhua.