América Latina se mobiliza por uma cooperação mais forte com o Sul Global contra pressões externas

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América Latina se mobiliza por uma cooperação mais forte com o Sul Global contra pressões externas

Por Xinhua

Cidade do México – Ao longo do último ano, a América Latina tem buscado uma cooperação mais forte dentro do Sul Global para lidar com um cenário político em transformação, marcado pela ascensão de forças de direita e desafios à governança.

Diante da crescente interferência externa e da pressão hegemônica, os povos da região têm se conscientizado cada vez mais da importância de proteger a soberania e buscar a autonomia estratégica. A ideia de unidade e cooperação no Sul Global também vem ganhando força.

Enquanto isso, a China, o maior país em desenvolvimento do mundo, e os países latino-americanos mantiveram frequentes intercâmbios de alto nível, fortaleceram de forma constante a cooperação prática em diversas áreas e deram passos concretos para avançar na construção de uma comunidade China-América Latina e Caribe (ALC) com futuro compartilhado.

PÊNDULO POLÍTICO OSCILA PARA A DIREITA

Em 2025, as tensões políticas entre a esquerda e a direita na América Latina se intensificaram, com o pêndulo oscilando para a direita.

Nas recentes eleições chilenas, o candidato de um partido de extrema-direita venceu a eleição presidencial. No Equador, o candidato presidencial de um partido de direita foi reeleito, e a Bolívia encerrou seu período de quase 20 anos de governo de esquerda.

Enquanto isso, a coalizão governista de extrema-direita na Argentina ampliou ainda mais sua vantagem nas eleições parlamentares.

Analistas disseram que a política na América Latina se moveu acentuadamente para a direita como resultado da interação de fatores internos e externos. No âmbito interno, os países que realizaram eleições este ano enfrentavam um crescimento econômico lento, melhorias limitadas nos padrões de vida e deterioração da segurança pública às vésperas da votação. Nesse contexto, partidos de direita apresentaram plataformas de campanha específicas que encontraram eco em um eleitorado frustrado. Externamente, o ressurgimento de correntes conservadoras no Ocidente, refletido no retorno de partidos de direita ao poder em diversos países, produziu um “efeito de demonstração” em toda a América Latina.

Contudo, uma análise da situação eleitoral em alguns países da América Latina e Caribe sugere que a tradicional divisão ideológica entre “esquerda e direita” enfraqueceu gradualmente. A orientação dos eleitores se tornou mais pragmática, com foco na capacidade de governança e em soluções práticas para questões como economia, emprego, segurança pública e bem-estar da população.

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) previu que a economia da região cresceria 2,4% em 2025. A transformação industrial dos países latino-americanos ainda tem muitos desafios devido ao baixo crescimento econômico persistente, à insuficiência de forças motrizes internas e às restrições impostas por fatores externos, como a intervenção dos Estados Unidos.

Em 2026, Costa Rica, Colômbia, Peru, Brasil e outros países da América Latina e do Caribe realizarão eleições gerais. Os resultados dessas eleições não apenas influenciarão as tendências políticas internas desses países, como poderão ter um impacto profundo no cenário político regional e na configuração geopolítica.

UNIDADE CONTRA A INTERFERÊNCIA

Desde o início de seu segundo mandato como presidente dos EUA, Donald Trump intensificou a intervenção nos assuntos da América Latina.

Pessoas participam da abertura da Assembleia Popular pela Paz e Soberania de Nossa América em Caracas, Venezuela, em 9 de dezembro de 2025. (Foto de Marcos Salgado/Xinhua)

A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgada em dezembro, avançou com um “corolário Trump” à Doutrina Monroe, defendendo a restauração da hegemonia dos EUA no Hemisfério Ocidental e um reajuste da presença militar americana, o que causou alarme generalizado na América Latina.

Nos últimos meses, os Estados Unidos mobilizaram forças aéreas e navais em larga escala perto da Venezuela sob o pretexto de combater o “narcoterrorismo”. Trinta e cinco “navios de narcotráfico” foram afundados no Caribe e no Pacífico Oriental, matando mais de 115 pessoas.

A Venezuela acusou Washington de tentar forçar uma mudança de regime e expandir sua presença militar na região. As ações dos EUA também geraram oposição de Cuba, da Colômbia, do Brasil e de outros países.

Após retornar à Casa Branca, Trump gerou controvérsia ao renomear o Golfo do México como “Golfo da América”, ameaçou repetidamente “retomar” o Canal do Panamá, implementou políticas de deportação severas, reincluiu Cuba na lista de “estados patrocinadores do terrorismo” e interveio abertamente nas eleições na Argentina e em Honduras em apoio a forças de direita.

Os aumentos tarifários de Washington também impactaram fortemente as economias latino-americanas. A CEPAL relatou que as novas medidas tarifárias enfraquecem significativamente a região. A capacidade dos Estados Unidos de atrair investimento estrangeiro direto (IED) é preocupante. No primeiro semestre de 2025, os projetos de IED recém-anunciados na América Latina e no Caribe totalizaram apenas 31,37 bilhões de dólares americanos, uma queda de 53% em relação ao ano anterior e 37% abaixo da média de 2015-2024.

Os Estados Unidos têm repetidamente usado tarifas como instrumento político. Este ano, ameaçaram impor tarifas mais altas à Colômbia devido a questões migratórias e de combate ao narcotráfico, e exerceram pressão tarifária em relação ao processo judicial envolvendo o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

Diante do unilateralismo e do comportamento hegemônico, os países latino-americanos fortaleceram sua resistência à intervenção e se tornaram mais determinados a proteger a paz regional e a buscar a cooperação para o desenvolvimento e a integração.

Na Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), realizada em abril em Honduras, os membros defenderam uma integração regional mais profunda e respostas conjuntas às pressões tarifárias e migratórias dos EUA. No referendo constitucional do Equador, em novembro, mais de 60% dos eleitores rejeitaram o estabelecimento de bases militares estrangeiras, sinalizando a oposição pública a uma possível presença militar dos EUA no país.

COOPERAÇÃO CHINA-ALC ABRE NOVO CAPÍTULO

Em 2025, a China e a América Latina mantiveram um estreito engajamento de alto nível e fortaleceram a confiança mútua. Chefes de Estado de países latino-americanos, incluindo o presidente brasileiro Lula e o primeiro-ministro de Granada, Dickon Mitchell, visitaram a China, injetando forte impulso nas relações bilaterais.

A cooperação multilateral e regional também avançou. A China se tornou formalmente um Estado observador da Comunidade Andina, uma medida bem recebida pelos países membros ansiosos por expandir a cooperação. Como presidente da CELAC, a Colômbia aderiu à Iniciativa Cinturão e Rota, em uma aparente tentativa de fortalecer os laços com a China e diversificar a diplomacia.

Trem de propulsão dupla, elétrico e a combustão, fabricado pela China Railway Rolling Stock Corporation (CRRC) Qingdao Sifang Co., Ltd., aguarda partida na estação central de Santiago, Chile, em 19 de janeiro de 2024. (Foto de Jorge Villegas/Xinhua)

Eduardo Regalado, pesquisador do Centro Internacional de Pesquisa de Políticas de Cuba, disse que o crescimento constante das relações China-América Latina e Caribe é uma força motriz para a autossuficiência do Sul Global, criando caminhos comerciais, financeiros e tecnológicos que beneficiam o mundo em desenvolvimento.

Em dezembro, a China divulgou seu terceiro Livro de Políticas sobre a América Latina e o Caribe, estabelecendo metas e áreas prioritárias para a cooperação em novas circunstâncias.

O documento diz que a China está pronta para unir forças com a América Latina e o Caribe para promover os cinco programas de solidariedade, desenvolvimento, civilização, paz e conectividade interpessoal, visando impulsionar o desenvolvimento e a revitalização compartilhados e escrever um novo capítulo na construção de uma comunidade China-América Latina e Caribe com futuro compartilhado.

Marcos Pires, professor de economia política da Universidade Estadual Paulista, disse que há grande expectativa de o documento injetar nova vitalidade nas relações entre a China e a América Latina e Caribe, além de expandir a cooperação em inovação tecnológica, economia verde e governança regional.

Em toda a região, a cooperação no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota tem apresentado resultados tangíveis.

No Porto de Chancay, no Peru, o primeiro porto inteligente e verde da América do Sul, a movimentação de contêineres ultrapassou 270.000 TEUs (unidades equivalentes a vinte pés) em seu primeiro ano de operação, enquanto a carga a granel ultrapassou 1,366 milhão de toneladas, tornando-o o terceiro maior porto do Peru. O projeto virou um símbolo da cooperação mutuamente benéfica entre a China e a América Latina e Caribe e da melhoria da conectividade regional.

Em Cuba, todas as usinas fotovoltaicas do projeto solar de 35 MW, com apoio chinês, entraram em operação, impulsionando a segurança energética e acelerando a transição para uma economia verde.

Os intercâmbios interpessoais se fortaleceram, injetando nova vitalidade no diálogo cultural. A China e os países da ALC avançaram conjuntamente na Iniciativa de Civilização Global e realizaram a 8ª edição do Diálogo de Civilizações China-América Latina.

A China concedeu isenção de visto, a partir de 1º de junho, a portadores de passaportes comuns do Brasil, da Argentina, do Chile, do Peru e do Uruguai, impulsionando as viagens e o entendimento mútuo.

O desenvolvimento de alta qualidade e a abertura de alto padrão da China oferecem maiores oportunidades de cooperação para as nações do Sul Global, ajudando a América Latina a avançar na transformação econômica e no desenvolvimento sustentável, ao mesmo tempo que promovem a construção de uma comunidade China-ALC com futuro compartilhado, disse Juan Carlos Capunay, ex-diretor-executivo do Secretariado da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) e ex-embaixador do Peru na China.

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