
A reta final da corrida presidencial ganhou novos e imprevisíveis contornos com a crise institucional instalada no Supremo Tribunal Federal (STF). O desgaste na mais alta Corte do país, agravado por desdobramentos de investigações e embates públicos envolvendo ministros, passou a dominar o debate político e obrigou a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a recalcular bruscamente sua rota.
O impacto imediato nos planos do Palácio do Planalto foi o sequestro da agenda positiva que o Partido dos Trabalhadores tentava consolidar. A estratégia traçada pelo marketing governista era clara: deslocar os holofotes para temas de apelo popular, como a economia, o controle da inflação, o preço dos alimentos e a ampliação de programas sociais, a exemplo do Bolsa Família. No entanto, a repercussão digital e o noticiário em torno da Suprema Corte sufocaram essas pautas.
Estudos de monitoramento digital apontam que o tumulto institucional gerou um salto na conversação negativa sobre o governo nas redes sociais. A oposição, liderada por nomes como o senador Flávio Bolsonaro (PL), encontrou no cenário um trampolim para intensificar discursos críticos ao Judiciário e tentar associar a imagem do governo a instabilidades na Justiça.
Pesquisas recentes de intenção de voto refletem o acirramento do momento. Com cenários de empate técnico na simulação de segundo turno, a campanha petista viu margens importantes em redutos estratégicos — como o eleitorado feminino — sofrerem pressões competitivas, enquanto a oposição capitaliza o desgaste institucional para mobilizar sua base.
Diante da impossibilidade de ignorar o tema, a coordenação da campanha de Lula optou por uma guinada tática. Em vez de apenas se esquivar, o presidente passou a adotar uma postura de cobrança por transparência total e investigação rigorosa de quaisquer irregularidades no âmbito do Judiciário, além de defender a necessidade de debates sobre reformas institucionais e critérios mais rígidos de moralização na Corte.
“A Suprema Corte tem que ser o exemplo magnânimo deste país. Quem errou deve pagar”, tem repetido o presidente em aparições públicas, em uma tentativa de blindar sua imagem e inverter o ônus político do desgaste.
Contudo, analistas políticos apontam que a manobra é um terreno minado. Ao abraçar o debate sobre a crise do STF, o governo corre o risco de manter viva uma pauta que alimenta a polarização e desvia o foco da economia — justamente o território onde o Planalto avalia ter maior potencial de votos nas semanas decisivas que antecedem o pleito.