
A busca por competitividade e pela redução de custos operacionais consolidou um fenômeno econômico silencioso, porém expressivo, na América do Sul: a migração de etapas industriais brasileiras para o Paraguai. Impulsionadas pela Lei de Maquila e por um ambiente de custos trabalhistas e energéticos significativamente mais baixos, mais de 230 indústrias de origem brasileira já operam no país vizinho.
O movimento abrange desde gigantes dos setores têxtil e alimentício até fabricantes de autopeças, plásticos, farmacêuticos e embalagens. Marcas conhecidas como Lupo, Karsten, JBS, Estrela e M. Dias Branco expandiram ou transferiram partes essenciais do seu parque produtivo para solo paraguaio.
O pilar dessa atratividade é o Regime de Maquila (Lei nº 1.064/1997), um modelo de industrialização por encomenda. Por meio dele, companhias estrangeiras importam matérias-primas e insumos com isenção de impostos alfandegários para montar ou fabricar bens no Paraguai. Ao término do processo, os produtos são obrigatoriamente exportados — principalmente de volta ao mercado brasileiro.
A disparidade entre o ambiente de negócios dos dois lados da fronteira explica a atração exercida pelo governo paraguaio:
| Indicador / Custo | Brasil | Paraguai (Regime de Maquila) |
| Imposto Único / Tributação sobre Exportação | Sistema complexo (IPI, ICMS, PIS/Cofins, etc.) | 1% de imposto único sobre o valor agregado |
| Encargos Trabalhistas (sobre salário) | Pode chegar a 80% – 100% | ~35% (contribuição patronal fixa de 16,5% ao IPS) |
| Custo de Energia Elétrica | Entre os mais altos da América Latina | Até 60% mais barata (abundância de Itaipu) |
| Tempo de Abertura e Trâmites | Burocrático e prolongado | Processos unificados em cerca de 60 a 90 dias |
Ao contrário do que sugere o termo “fuga de indústrias”, analistas apontam que a maior parte do movimento ocorre na forma de fragmentação da cadeia de valor. As empresas mantêm no Brasil suas sedes administrativas, centros de P&D, logística, estratégia comercial e desenvolvimento de marca, enquanto transferem para o Paraguai as etapas produtivas mais intensivas em mão de obra e energia.
Setores em Destaque e Impacto no Emprego
Atualmente, cerca de 60% a 63% de tudo o que é produzido sob o regime de maquila no Paraguai é destinado ao Brasil. O setor têxtil lidera a presença brasileira, seguido pela manufatura de plásticos, peças automotivas, alumínio e alimentos.
Setor Têxtil e Calçadista: Indústrias como a Karsten (com investimentos recentes de US$ 40 milhões na produção de toalhas) e a Lupo utilizam a estrutura paraguaia para escalar a produção sem comprometer o preço final da peça nas vitrines brasileiras.
Autopeças: Empresas que fornecem chicotes elétricos e fiação para montadoras situadas no Brasil aproveitam a proximidade geográfica de cidades paraguaias como San Lorenzo e Ciudad del Este.
Estimativas apontam que as maquiladoras geram mais de 35.000 empregos diretos no Paraguai, dos quais mais de 25.000 estão vinculados a empresas de capital brasileiro.
Enquanto o Paraguai se consolida como o “hub produtivo” da região, entidades da indústria brasileira chamam a atenção para a perda de postos de trabalho operacionais no país. O movimento pressiona debates sobre a urgência do avanço da simplificação tributária, da redução do “Custo Brasil” e da segurança jurídica para reter investimentos produtivos em solo nacional.