

Shanghai – Diante da bancada, Bruno Canuto se inclina sobre um pequeno broche. Com uma pinça, pega um fragmento colorido de esmalte, o insere delicadamente e ajusta com cuidado. Ao lado, uma estudante da Escola Comercial de Shanghai o orienta. A cada pequeno espaço preenchido, ele para por um instante, confere o trabalho e volta a se concentrar.
Antes do início da WorldSkills Shanghai 2026, a delegação brasileira visitou a escola na terça-feira para participar de uma atividade de intercâmbio com estudantes chineses.
Bruno, competidor da ocupação de Revestimento Cerâmico, logo percebeu que a produção do broche de esmalte tinha relações em comum com sua prova. “A minha ocupação utiliza esmalte. A gente recebe placas que têm esmalte e forma desenhos também muito parecidos com isso”, disse.
Aos 15 anos, Bruno começou a treinar do zero. Nos três anos seguintes, dedicou de oito a nove horas por dia à preparação. Corte, recriação de desenhos e assentamento tornaram-se inúmeros movimentos repetitivos de um processo de aperfeiçoamento constante. Para ele, cada detalhe pode fazer diferença e neste trabalho não há espaço para deixar pequenas imperfeições.
No ano passado, competidores chineses foram ao Brasil para participar de uma competição simulada. Bruno perdeu a disputa, mas encontrou ali uma oportunidade de evoluir. Ele observou que os competidores chineses treinavam com mais disciplina e que seus métodos eram mais precisos. “É um ponto em que o Brasil quer se espelhar muito na China”, afirmou.
Ir a Shanghai sempre foi um sonho para Bruno. Ao falar da cidade, com muita expressão ele mostra o papel de parede do celular, com os arranha-céus da região toda iluminada da Torre Pérola Oriental, os neons brilhando à noite e as luzes da margem oposta se refletindo nas águas do rio Huangpu. Agora, mais do que a cidade que por tanto tempo viu na tela, o que o entusiasma é finalmente estar no palco da WorldSkills.
Assim como Bruno, os brasileiros que chegaram a Shanghai trazem longas trajetórias de treinamento. A delegação brasileira reúne 71 competidores, que participam das 64 ocupações da competição. Os participantes passaram por várias etapas de seleção antes de chegar à equipe nacional e receberam treinamento específico para suas ocupações.
Por trás dessa preparação está uma ampla rede de educação profissional. Carlos Braguini, superintendente de educação profissional e superior do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), explica que o SENAI e o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC) mantêm mais de mil escolas de formação profissional no Brasil, preparando profissionais para diferentes setores da economia.
Segundo Carlos, além das aulas regulares, os competidores precisam dedicar horas extras aos treinamentos, em um processo que dura cerca de dois anos. Ele também espera que os jovens brasileiros aproveitem a oportunidade em Shanghai para conhecer a educação profissional e a cultura chinesas e levar novas experiências ao Brasil.
Para Mylena Nogueira, de 21 anos, competidora de Tecnologia da Moda, essa trajetória começou ainda na infância. Nascida em Mato Grosso, ela aprendeu a costurar com o pai, que não era costureiro, mas lhe ensinou os primeiros passos e mais tarde lhe deu uma máquina de costura. Ao entrar no SENAI, aprofundou os conhecimentos em costura industrial, modelagem e design.
Em sua primeira competição nacional, Mylena teve de fazer justamente a tarefa que mais temia: a gola lapela. Quando o cronômetro começou, competidores de diferentes estados passaram a disputar lado a lado, enquanto o público acompanhava a prova. A tensão do ambiente, em vez de intimidá-la, fez com que se envolvesse ainda mais e percebesse que gostava, sobretudo, de competir.
Hoje, ela treina de oito a 12 horas por dia. “Eu escolhi isso, eu gosto disso, eu amo isso. Então vale a pena todo esse meu esforço”, disse Mylena.
Também aos 21 anos, Maria Luiza encontrou na confeitaria seu caminho profissional. A escolha começou de maneira simples: “Eu queria comer coisas diferentes.”
Desde criança, ela gostava de preparar ovos de Páscoa com a mãe e também fazia doces brasileiros, como brigadeiro. O doce de leite, conta, traz lembranças da avó e da infância.
Durante o curso profissionalizante, passava boa parte do tempo na cozinha, trabalhando em grupo com os colegas. Ao entrar no sistema de competições, passou a praticar individualmente com uma treinadora. A preparação se tornou mais intensa, e ela ampliou os estudos para técnicas da confeitaria francesa e internacional.
Ao chegar a Shanghai, Maria tem um objetivo claro. Segundo ela, o Brasil ainda não conquistou uma medalha na ocupação de Confeitaria. “Eu quero poder subir no pódio e falar: ‘Tá, conseguimos, Brasil. Essa é a nossa.'”