
Em um dos capítulos mais dramáticos da história política e financeira recente da América do Sul, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou seu pedido de renúncia ao cargo. A decisão ocorre após uma semana de intensa pressão política, protestos violentos nas ruas de Assunção e o avanço avassalador de um processo de impeachment no Congresso Nacional.
O gatilho para a derrocada do governo foi a intervenção e o consequente colapso do Ueno Bank, a maior instituição financeira digital do país, da qual Peña foi acionista até o início de 2025.
A crise teve início quando o Banco Central do Paraguai (BCP) determinou a intervenção e a suspensão imediata das operações do Ueno Bank. As auditorias revelaram um cenário estarrecedor: o índice de solvência da instituição havia despencado para menos de 50% do mínimo exigido pela legislação financeira nacional.
O congelamento repentino das contas atingiu cerca de 2,9 milhões de clientes — o equivalente a quase metade de toda a população do Paraguai (6,1 milhões de habitantes).
Operações Suspeitas: O Ministério Público acusa a diretoria de ter concedido empréstimos irregulares e sem garantias que superam os US$ 167 milhões (cerca de R$ 900 milhões) para empresas ligadas ao próprio grupo controlador.
Prisões e Acusações: Pelo menos 27 pessoas foram denunciadas por lesão de confiança e estelionato, resultando na decretação da prisão do presidente do banco, Juan Manuel Gustale, e do controlador do grupo, Miguel Vázquez.
Efeito Cascata na Fronteira: A paralisação trava transações comerciais cruciais, afetando o comércio de importados em Ciudad del Este e deixando milhares de estudantes — incluindo brasileiros que cursam Medicina no país — sem acesso a recursos para moradia e subsistência.
O Efeito Dominó na Política
A ligação do ex-presidente com a instituição financeira provou-se fatal para sua governabilidade. Peña sustentava ter vendido sua participação societária na holding controladora, mas a oposição e a opinião pública apontaram graves conflitos de interesse, acobertamento institucional e uso indevido de fundos.
A reviravolta decisiva no Congresso veio do próprio partido de Peña, o Partido Colorado. O ex-presidente Horacio Cartes, historicamente tido como o padrinho político do mandatário, retirou seu apoio público. Com a perda da base aliada, a Câmara dos Deputados aprovou a admissão do pedido de impeachment por expressivos 78 votos a favor.
| Cronologia dos Fatos | Acontecimento |
| Terça-feira | O BCP intervém no Ueno Bank e paralisa aplicativos, cartões e saques. O presidente do Banco Central renuncia. |
| Quarta-feira | Milhares de poupadores e estudantes tomam o centro de Assunção em protestos contidos com repressão policial. |
| Quinta-feira | A Câmara aprova o impeachment por unanimidade; Santiago Peña envia carta oficial de renúncia ao Congresso. |
| Sexta-feira | Congresso avalia os ritos de sucessão e os mecanismos de ressarcimento do Fundo Garantidor. |
De acordo com o rito previsto pela Constituição Paraguaia, a carta de renúncia precisa ser formalmente ratificada pelo Congresso Nacional. Assim que o processo for concluído, o vice-presidente Pedro Alliana assumirá o comando do país.
Para a população, a prioridade imediata é a recuperação do dinheiro. As autoridades financeiras paraguaias informaram que o fundo garantidor de depósitos cobre até 75 salários mínimos locais (cerca de R$ 207 mil por pessoa), o que deve atender a 97% dos poupadores afetados. No entanto, o trauma econômico e as incertezas institucionais prometem deixar cicatrizes profundas na política paraguaia por longos anos.