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O professor e a pandemia

Foto: Divulgação

Consta que Prometeu, na mitologia, foi o primeiro professor do ser humano. Não só teria lhe ensinado o nome das coisas, mas sobretudo a nomeá-las, contá-las e avaliá-las. Antes disso, ao que tudo indica, Deus ensinou aos habitantes solitários do paraíso as lições do bem e do mal, embora Eva tenha se surpreendido com o gosto do fruto daquela que era a árvore do conhecimento. De sua sede por saber nascemos nós, pecadores convertidos à tarefa de descobrir o que está por trás das coisas. Os gnósticos, cuja religião era lutar contra a ignorância do mundo, fizeram do conhecimento uma redenção. Os sofistas, depois, ensinavam em praça pública a difícil arte de pensar com metodologia, reunindo os pontos. Mas foi Tales o primeiro professor stricto sensu, que reuniu o todo, disperso, múltiplo e caótico, em um único elemento: a aparente ingenuidade da frase que ele inventou (“tudo é água”) traduz a missão mais profunda que um mestre deve deixar a seus estudantes, qual seja, a de pensar (que é, como se sabe, reunificar o todo e dar-lhe contornos). O contrário seria viver na dispersão, coisa de pouca valia.
Hannah Arendt lembrou que ao nascer, o homem inaugura o novo pela via da sua ação. Todos os que chegam no mundo, contudo, embora cheios de futuro, são pressionados pelo passado, carregado em vasos de barro, como nos ensinou a Bíblia. A fragilidade do enorme conhecimento acumulado que chamamos de cultura, contrasta com a dureza da tarefa que ela nos impõe: toda civilização exige das novas gerações que bebam da água inesgotável do mesmo poço, podendo com isso matar muitas sedes, a maior delas, a de conhecimento. Assim, sequiosos, todos os seres humanos levam adiante o tesouro do passado e não há quem o faça com mais destreza que o professor. Cada um desses seres estranhos, rodeados de quem cativou, recolhe no mofo dos livros o que deve ensinar às crianças e jovens, a quem passa a tarefa que ele mesmo recebeu de ontem.
Não há missão mais sagrada! E para que ela fosse desempenhada adequadamente, inventou-se didáticas, regras e ferramentas que, no nosso tempo, incluem coisas tecnológicas de todo tipo, um imenso poder que, de tão ambíguo, transforma-se em instrumento de verrumar a terra dura do coração das gentes, agora que o vírus nos obrigou a ficar em casa e a cobrirmos o rosto – precisamente ele, que, segundo Lévinas, é o modo como o eu encontra o outro. Por ora, conformemo-nos, isso está interditado. Não para o professor: aí, na sua sala de estar, ele continua fazendo o que lhe coube, frente ao colapso de quase tudo. Comprou novos dispositivos, ergueu luzes e altares de livros e outros objetos de estimação. Frequentou cursos e aprendeu muita coisa de novo, com tanta rapidez e desembaraço, que surpreendeu até os mais otimistas. Tenta por tudo, agora, cativar os estudantes e oferecer-lhe o gosto da fruta que continua pendendo daquela árvore do conhecimento que está brotando no centro do paraíso.
Hoje, que é seu dia, ele terá aulas, terá alunos, terá tarefas a dar e a corrigir. Falará dos livros que leu, dos conceitos que aprendeu e das lições existenciais, mesmo aquelas que, por não explícitas, adivinha-se no seu hálito, por detrás das palavras. Nietzsche uma vez escreveu sobre Schopenhauer (que ele considerou um mestre), que o verdadeiro educador é aquele que liberta em cada um a sua verdade mais íntima. Para o filósofo, cada ser humano é um “milagre irrepetível”. Se o nosso tempo é o da padronização, da pressa em formar “homens correntes” e vulgares, algo que nos deixa cada vez mais pobres de nós mesmos, pobres de amor e de bondade, cabe ao professor e à professora devolver a nós a única felicidade que importa: a de estarmos em posse de nós mesmos. Agora que quase tudo na terra está revestido com a neblina pandêmica, que estamos separados por máscaras, vidros e acrílicos de mil formas, os professores refundam essa tarefa, mediada pela tecnologia e azeitada pelo entusiasmo e a confiança de sempre. Do lado de cá e do lado de lá da tela, à nossa geração coube viver o invisível, o insuspeito, o inédito. E é aí, nessa nova espécie de mediação, que cada professor e cada professora continua convocando seus estudantes, não para si nem para as atividades da aula, mas para eles mesmos. Esse é seu ofício. Lutar contra a tolice. Tal coisa dói, já se sabe desde Sócrates. Mas é disso que todos precisamos, haja o que houver. É de seu perigo, do seu incêndio, como escreveu Emerson, com quem rogamos a Deus que envie mais professores, capazes de comover a todos nós, não com suas palavras e boas luzes, mas com sua vida.

Jelson Oliveira é filósofo, professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).

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